“Sim” - conto

 — Vou me casar — disse Elise, numa manhã preguiçosa de outono. 

Uma garoa fina umedecia a rua lá fora, mas nem chegava a molhar a janela. Estávamos numa chamada de voz. Ainda bem. Eu nunca fora muito boa em disfarçar minhas expressões faciais. 

Pode-se dizer que Elise era minha melhor amiga. Era. Até ela começar a namorar Lucas, minha paixonite secreta. Tão secreta que eu nunca havia contado a Elise, algo do qual me arrependeria amargamente. 

Eu sabia que não era proposital. Elise não sabia que eu nutria sentimentos por Lucas, ela não tinha como adivinhar. No entanto, fiquei com raiva da minha melhor amiga. E, pior, tive inveja. “A inveja corrói o ser humano” dizia o padre nas missas de domingo. Sim, eu já começava a sentir os efeitos desse ácido sentimento.

Primeiro, um gosto ruim tomou conta de minha boca e me impediu de parabenizar minha amiga. Depois, meu estômago pareceu se esvaziar e o tempo, parar. Flashes de quando ainda éramos estudantes de ensino médio passaram em minha mente. Eu, uma nerd de óculos fundo-de-garrafa e espinhas no rosto; Lucas, com seu inseparável suéter cinza claro e um livro de poesia debaixo do braço; Elise, com suas mechas loiras esvoaçantes sob o sol no pátio da escola. Por algum motivo, enquanto todo mundo parecia me querer longe, como se espinhas fossem uma doença altamente contagiosa, Lucas era a única pessoa gentil comigo. Bem, ele e Elise.

— Mônica? Mônica?

O chamado do outro lado da linha me trouxe de volta ao presente. Com esforço, pigarrei e consegui elaborar um “parabéns”. 

— Está tudo bem, Mô? — perguntou Elise com um toque de preocupação que me irritou ainda mais. 

— Está! — menti. — Desculpe, é que estou fazendo outras coisas ao mesmo tempo.

Minha amiga sabia que eu estava mentindo e eu sabia que ela sabia pelo “ah” que me respondeu. Era esse tipo de situação que me deixava enraivecida. Ela sabia que algo estava errado, mas fingia que tudo estava bem. Talvez porque já desconfiasse. Caso contrário, qual o motivo de não insistir? Elise devia ter medo da resposta, medo de saber que eu também gostava de Lucas, medo do que aconteceria com a nossa amizade se eu finalmente assumisse a verdade.

— Então… — continuou ela. — Você sabe, né? Vai ter que ser minha madrinha!

O celular quase caiu de minha mão, mas consegui o ajeitar a tempo para responder:

— O quê?! Eu?

— Sim! Você sabe! Só tenho você de amiga, Mô!

Fiquei pensando se aquilo deveria soar como um elogio. Talvez, se eu fosse uma amiga possessiva, soaria, mas eu não era.

— Tem certeza? — perguntei. — Eu não tenho um par…

Não conseguia pensar em mais nenhum motivo para recusar o convite. Queria poder ser honesta e dizer toda a verdade que entalava minha garganta. Sentia uma bola que parecia apenas aumentar enquanto eu fingia externamente que tudo, absolutamente tudo, estava bem. 

— Não se preocupe! O Lucas tem um primo que terminou recentemente. Ele quer muito que ele seja padrinho e então pensamos em vocês dois! 

Claro! Eles pensaram em tudo, exceto nos meus sentimentos.

— Ah, sim…

— Você não precisa se sentir desconfortável em fazer par com quem nunca viu. Nós teremos um jantar de noivado e você vai conhecer esse primo antes do casamento!

Eu não conseguia acreditar que Elise realmente achava que minha preocupação era essa. 

— E aí, está feliz? — perguntou ela. 

Um requinte de crueldade. Ela devia saber que não. Devia saber que eu estava morrendo por dentro. De repente, lembrei-me do desenho da Branca de neve e imaginei-me comendo a maçã envenenada. Talvez fosse a mesma sensação que eu sentia, apodrecendo por dentro. Tinha a impressão de que meus órgãos estavam se liquefazendo, meu rosto parecia de cera derretida e eu já não conseguia mais fazer nenhuma expressão que não fosse horrorosa.

— Claro! Estou feliz por você — consegui dizer de alguma forma. 

Eu era falsa ou apenas incompreendida? Tive vontade de confessar tudo, de expressar meus verdadeiros sentimentos, de xingar minha amiga, de desligar o telefone, mas não. Era tarde demais e eu sabia. Mesmo que eu fizesse o que gostaria, nada ia mudar. Lucas gostava de Elise e me tratava bem, porque eu era sua amiga, não porque também nutria algum carinho por mim.

— Bem, eu preciso desligar, Mô! Tenho algumas coisas para ajeitar aqui!

Coisas para ajeitar… do casamento? Senti uma pontada no peito. Tudo já estava assim tão avançado? Realmente não havia mais volta? 

— Está bem. Vai lá!

— Vamos nos falando!

— Certo!

Desliguei o telefone e ele escorregou da minha mão. A película de vidro rachou em contato com o chão de piso frio. Droga! Era um daqueles dias em que tudo parecia dar errado. Olhei pela janela e aquela garoa fina me intrigou. E se o carro de Elise derrapasse na chuva? Não, não chovia tanto assim. Mas… e se o freio falhasse? A garoa pareceu engrossar como resposta aos meus pensamentos. 

Peguei meu celular de tela rachada do chão e liguei para meu mecânico de confiança. Uma proposta. Era tudo o que eu faria. Se ele dissesse sim, ótimo. Se dissesse não, eu desistiria de vez. Marcos atendeu antes do segundo toque.

— Sim, Dona Mônica?

“Sim”. Era um sinal. 


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