Um dia de chuva
Um dia de chuva
Chovia torrencialmente. Maldição! Não tinha melhor hora para o motor falhar? Amanda havia visitado a avó em sua casa de campo, no interior da Romênia, e estava voltando para a capital. Aquelas estradas tortuosas e a chuva não combinavam. Quando o carro começou a falhar, ela encostou no acostamento e tentou ligar para a seguradora, mas não havia sinal. Ao invés de ficar no carro, parada, aguardando a chuva passar, ela decidiu que seria melhor procurar por um canto coberto para se abrigar. Afinal, assim seria mais seguro, certo?
Fazia trinta minutos que Amanda procurava um abrigo, o que parecia muitas horas embaixo daquele dilúvio. Ela finalmente avistou uma mansão protegida por altas cercas vivas e um portão de ferro escuro, que parecia não ser aberto há bastante tempo. O aspecto bucólico e sombrio a amendrontou de início, mas que escolha ela tinha?
Aproximou-se do portão de ferro e tentou abrí-lo. Para sua surpresa, ele se mexeu facilmente, permitindo sua passagem. Suas mãos, já frias, ficaram manchadas de acobreado e com cheiro metálico, mas quem liga? Amanda as limpou em sua calça encharcada e andou pelo caminho com pedras até a mansão. Chegou até a porta e percebeu que não havia campainha, nem maçaneta. Como vou entrar? Mas não precisou se preocupar por muito tempo. A porta se abriu sozinha, rangendo bastante durante o processo.
Amanda espiou dentro do cômodo. Parecia que ninguém entrava lá há muito tempo. A camada de poeira estava grossa e os móveis estavam cobertos por lençóis que, um dia, foram brancos. Ela deu um passo para dentro e espirrou. O som de seu espirro ecoou pela mansão. Melhor ter uma crise rinite do que uma pneumonia. Deu mais dois passos para dentro e ouviu novamente o rangido da porta e seu baque surdo quando se fechou completamente. Estranho.
Após parar um minuto pensando que sua entrada fora fácil demais, Amanda desistiu e foi em direção ao sofá. Estava cansada demais para ter medo. Um lençol grande cobria o sofá de três lugares. A garota tentou puxar um lado lentamente para não levantar muito pó, uma tarefa quase impossível. Alguns espirros depois, ela conseguiu descobrir todo o sofá e sentou-se na ponta. Mesmo embaixo do lençol, havia traços de poeira, e o que, um dia, fora um majestoso sofá amarelo, agora estava desbotado, sofrido.
Amanda percorreu com a ponta dos dedos o bordado florido que adornava o apoio de braço do sofá, sem ter ideia de que tipo de flor era aquela. O tecido amarelo era aveludado e seus dedos deslizavam facilmente, mas ela viu que as pontas ficaram sujas de pó.
A garota não viu o relâmpago, mas se assustou quando ouviu o trovão. Outro arrepio passou por sua coluna. E se ela estivesse sendo observada? Olhou para os lados, mas viu apenas móveis cobertos e portas fechadas. Não. Aqui tem cheiro de quarto abafado. Deve estar há tempos sem abrir. Mas… e se?
Resolveu explorar o lugar e certificar-se de que não havia mais ninguém ali. Foi até a porta da direita e girou a maçaneta de ferro. A porta se abriu, revelando uma cozinha espaçosa. A bancada estava empoeirada, mas era a maior bancada de mármore que Amanda já havia visto. Ela abriu as gavetas e portas, mas não encontrou nada além de fezes de baratas e ratos. Se alguém vivia ali, não devia comer.
Voltando ao salão principal, Amanda se dirigiu a outra porta. Ela se abriu para uma biblioteca enorme, com estantes que iam até o teto. Os vidros estavam sujos, mas a garota reparou em marcas de mãos recentes que deviam ter aberto e fechado as portas das estantes. Ela foi até uma delas e a abriu. Sentiu um cheiro sutil de cravo. Retirou um livro grosso e voilà! Lá estava um cravo. Amanda não sabia dizer se o cravo era novo ou velho, mas havia sinal de gente ali e era isso que lhe importava.
Resolveu deixar a biblioteca às pressas e subiu as escadas para o andar de cima. Encontrou um corredor longo com cinco portas de madeira. Abriu cada uma delas e viu quatro quartos iguais. O último era o único diferente, maior, e continha outra porta. Amanda entrou no cômodo, que não cheirava tão abafado quanto os outros, e andou até a tal porta misteriosa. Um banheiro, talvez? Abriu-a. Uma enorme banheira branca ocupava o meio do ambiente. Ao seu lado, uma pia, um vaso sanitário, e, ao fundo, outra porta. Seu coração acelerou. Não havia razão para um banheiro ter duas portas. Foi até ela e girou a maçaneta, mas a porta não abriu. Estranho. Todas as portas da mansão estavam destrancadas. Por que esta não?
Amanda tentou mais algumas vezes, mas a porta não cedeu. Curiosa, resolveu voltar ao quarto e procurar a chave. Nem teve o cuidado de tirar os lençóis devagar, apenas os jogou ao chão de qualquer jeito. Espirrava, mas continuava procurando. Apenas quando um vento frio a atingiu, Amanda olhou para a janela. Uma fresca bem pequena permitia a passagem do ar que trazia cheiro de terra e grama molhada. Ela foi fechar a janela, incomodada com o frio, porém um morcego surgiu do lado de fora, assustando-a. Amanda recuou dois passos e o morcego se espremeu pela fresta e entrou no quarto. A garota ficou em choque. Como era possível um morcego passar por uma fresta tão pequena?
A garota passou os olhos pelo quarto procurando qualquer coisa que pudesse lhe servir como arma, mas não encontrou. Já o morcego, muito mais rápido, voou em sua direção e a mordeu no braço. A garota ficou paralisada de medo e dor e esperou por algo, mas nada aconteceu. Ele deu mais uma volta voando pelo quarto e depois saiu, da mesma forma que havia entrado. Enquanto isso, Amanda apenas somente existiu, nem se lembrando de respirar.
Após a saída da criatura, a garota se lembrou de que estava em apneia e respirou forte. Ela pôde, então, voltar a se mexer. Desistiu de procurar pela chave, pois já tinha sentido emoções demais para um só dia e voltou ao salão principal. Existem coisas que devem continuar em segredo. Sentou-se no sofá, pegou o lençol sujo do chão mesmo para se cobrir e adormeceu. No dia seguinte, o dia amanheceu com sol e a garota pode acionar o seguro do carro e ir para casa.
Uma semana depois, Amanda começou a ter febre. O suor frio escorria por sua testa e não havia remédio que a baixasse. A garota sofreu em sua cama, sem ter forças nem para ir ao hospital. Três dias depois do início da febre, suas pupilas se dilataram e ela sentiu uma enorme vontade de morder alguém. Seus instintos pareciam mais aflorados e ela já não conseguia ser racional. Só pensava em morder alguém, qualquer um.
Não conseguiu mais nem pensar em procurar um hospital, já havia perdido essa racionalidade. Ela saiu de casa do jeito que estava vestida, de pijamas e chinelo. Bateu na porta do vizinho. Quando um rapaz jovem atendeu, ela não teve dúvidas: ele seria sua primeira vítima. Queria mordê-lo. Muito.
O rapaz gritou, surpreso com o ataque repentino. A comoção chamou atenção do prédio todo. Quando viram o estado de Amanda, magra, branca, com as pupilas dilatadas e os dentes a mostra, correram para trazer as mais diversas coisas: crucifixo, alho, água benta…
No entanto, o alho não lhe causou repulsa, muito menos os objetos sagrados. Na verdade, havia algo, muito mais simples, que poderia lhe dar medo: a água. A garota estava com medo de água. Afinal, a raiva já havia se instaurado. Uma pena que os moradores descobriram tarde demais…
Não havia soro anti-rábico no hospital para todos.
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