Nunca enviadas
Querida Rosa,
Ainda guardo sua corrente de ametista não polida. Carrego comigo aonde quer que eu vá, na esperança de um dia te encontrar. Outro dia, pensei ter te visto na rua e corri como um louco para te alcançar, mas, no fim, não era você. Mais uma vez, meus olhos me enganaram.
Talvez você nem se lembre de mim, já esteja casada, tenha construído sua própria família. Talvez se pergunte o que aconteceu com sua corrente, se é que você se lembra de ter me dado um dia. Talvez você até se lembre de mim, mas como um amigo ou como o menino que te ajudou um dia. Mas talvez, só talvez, você também me espere em algum lugar do mundo.
Vinte anos e ainda não consegui te esquecer. Já decorei todas as nuances de cor da sua ametista roxa, todos os seus relevos. Às vezes, me pergunto por que alguém usaria uma ametista não polida como pingente, especialmente uma criança, e fico imaginando que significado ela teria para você.
Ainda me lembro claramente do dia em que você me presenteou com o colar. Era meu aniversário de oito anos. Meus pais resolveram fazer uma grande festa e contratar um palhaço para fazer um show e animar as crianças. Eu não sabia quem você era. Só me lembro de ter visto sua mão saindo debaixo da mesa do bolo e tentando alcançar um brigadeiro. Eu bati na sua mão para te impedir. Você se assustou e me espiou por debaixo da toalha. Foi nosso primeiro contato. Num primeiro momento, você não quis me dizer porque estava escondida debaixo da mesa. Creio que estava com vergonha. Depois, me confessou que tinha medo de palhaços.
Eu posso te dizer hoje que fiquei chocado. Como alguém tinha medo de uma coisa tão divertida? Mas depois descobri que existem várias pessoas como você. Sabe como? Um dia, me fantasiei de palhaço e fui trabalhar como voluntário em um hospital na ala infantil. A maioria das crianças me adorou, mas duas meninas começaram a chorar logo que me viram. Me lembrei de você. Não sei bem o que passou pela minha cabeça, mas eu achava que se me vestisse de palhaço, poderia te assustar e te encontrar. Hoje, meu plano parece não fazer sentido nem mesmo para mim.
Se, um dia, você ler essa carta, eu espero que esteja bem. Espero que eu tenha te encontrado e que estejamos juntos. Seria muito triste se um dia eu a entregasse e isso significasse uma despedida, não um encontro. No entanto, eu sei que existe essa possibilidade. E isso quase me tira as esperanças de te encontrar. Você pode achar que sou louco, mas sinto que você me procura. Até mesmo sonho com isso e, neles, você chama meu nome.
Querida Rosa, agora eu me despeço. Vou guardar sua ametista roxa com muito carinho sempre e para sempre, mesmo que nunca nos encontremos de novo.
Abraços,
Carlos.
Querido menino da camiseta laranja e aniversariante,
Como está? Espero que se encontre bem. Talvez você não se lembre de mim, porque faz vinte anos que nos vimos uma única e última vez. Para você, talvez não tenha sido nada, mas para mim você fez algo muito grandioso. Foi a primeira vez em que me senti ouvida e defendida.
O engraçado, quando penso sobre aquele dia, é que não te perguntei seu nome. Tive vergonha. Afinal, já tinha entrado na festa errada. Depois, descobri que era tudo parte do plano de uma das valentonas do meu colégio. Ela me mandou o convite com o endereço errado de propósito. Mas isso não importa. Eu não teria te conhecido se não fosse por essa “brincadeira”.
Sabe, você disse naquele dia que eu era esquisita. Eu chorei. Talvez você tenha se sentido mal por ter me feito chorar, mas queria te dizer que não chorei pelo o que você disse. Chorei por todas as vezes em que ouvi que eu era esquisita. Porque você não foi a primeira, nem a segunda pessoa a me dizer isso. E, naquela situação em que nos encontramos, eu realmente estava agindo de forma esquisita, escondida debaixo da mesa. Então não fiquei chateada pelo o que você disse na hora. Só chorei porque me lembrei de todas as outras vezes.
Sempre sofri muito na escola. Eu era diferente, de olhos puxados e finos, pele clara e cabelo liso, bem liso e preto. Eu sabia que era diferente das outras meninas. Mas você não pareceu se importar. Você me tratou como igual.
Minha mãe me deu um colar de ametista roxa para proteção quando eu tinha cinco anos. Ela dizia que eu podia apertar a pedra sempre que me sentisse sozinha ou desamparada. A pedra ia me lembrar de existem coisas imutáveis, como ela, mas também que existem coisas mutáveis, como o sofrimento. Um dia, ela dizia, meu sofrimento iria acabar. Então eu apertava a pedra e desejava que o tempo passasse rápido, que tudo aquilo acabasse. Pode parecer bobo, mas aquilo realmente me ajudava.
Então te dei a pedra, meu item mais precioso. Nem sei porquê te dei aquilo. Hoje vejo que era também um presente inútil. Mas eu achava que estava indo para o aniversário de uma menina, não de um menino. E já que entrei de penetra na sua festa, ao menos um presente devia te dar. Algo que não fosse a Barbie que estava embrulhada e comigo debaixo da mesa.
Não tive tempo de te explicar como usar a pedra. Meu pai veio me buscar na hora. Mas quem sabe ela não te proteja como me protegeu? Se é que você ainda a guarda. Provavelmente não.
Nunca mais te vi, mas sinto que um dia iremos nos encontrar novamente. Ou seria apenas minha própria esperança?
Abraços,
Rosa.
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